04/12/09

Primeiros passos

Minha primeira vez num motel, ele me disse que ali faziam vista grossa à entrada de menores. Podia ser meu pai, aliás foi mesmo meu pai que nos apresentou na festa do Olavo, festa louquíssima em que havia filas para cheirar sobre a tampa da privada; os adultos e seus hábitos estranhos, eu pensava.
O homem bonito de bigode se juntou a nós, Augusto, e logo já me beijava e beliscava o bico dos meus peitos por cima da blusa e sob os olhares maliciosos do meu pai. E agora, na mesma semana, ligava a televisão num programa da tarde da tv aberta e tirava a roupa.
Deitou-me e me chupou a buceta longamente; meus olhos passeavam pelas cortinas encardidas, paravam no programa de calouros, corriam os móveis e senti alguma culpa quando ele reclamou que eu parecia não gostar. Desistiu e sugeriu que eu beijasse o Junior.
_ Junior...?
Balançou o pau. Ah. Beijei.
_ Não, não assim, passe a língua, ponha na boca.
Tentei, busquei concentração e vontade mas é claro que ele logo desistiu disso também. Deita, mete, banho, roupa.
No caminho de volta à minha escola, conta da última namorada que engravidou e que discreta e elegantemente abortou por conta própria, ligando apenas para informá-lo ao fim de tudo.
Anotado, capitão. Guardei as lágrimas pra depois. Fiquei pensando se seria um problema não ter gostado quando ele me chupou, tinha medo de ser frígida e nem suspeitava que levaria anos até gozar de novo com um homem.
Acho que foi trauma que restou da minha primeira trepada. Esse moço eu tinha conhecido nas férias, voltamos a nos encontrar algumas vezes em São Paulo e numa delas fomos até a sua casa para um baseado. Deitados na cama, conversávamos quando ele começou a me masturbar sobre a calça. Nunca um homem tinha me tocado daquele jeito e nem tinha entendido direito o que estava acontecendo quando gozei, o corpo fugindo do meu controle e pertencendo a outro num estalar - ou fremir - de dedos.
_ Agora é minha vez, disse ele.
Olhei curiosa.
_Ora, você já gozou, agora eu também quero e você me ajuda.
Pediu que eu me despisse e atendi, demorou um pouco até que ele me colocasse sobre a cama do jeito que queria, de quatro e eu quase ria, o que será que ele ia fazer naquela posição tão esquisita?
Gritei quando seu pau começou a entrar no meu cu e quis me esquivar; atento, me segurou e disse que a dor logo ia passar, falou calmo que eu relaxasse e eu tentei mentalizar o exercício de relaxamento que tinha aprendido com a amiga astróloga da minha mãe. Funcionou e ele também não demorou a gozar. Depois ficou ardendo uns dias, e passou.
Fiquei achando o preço meio alto por algo que eu fazia muito bem sozinha. Gozar com outro me pareceu bem arriscado e acho que desisti.
Até conhecer a Lisa, já beirando os trinta. Mas essa é outra história.

25/11/09

Eita, gente besta

Se há um tipo que realmente se acha e ainda argumenta para provar que é, esse é o paulistano. Em geral um caipira com acesso à cultura do mundo todo que mal enxerga um palmo à frente do nariz, provinciano cego que se diz muito moderno.

Lembro de quando a Janaina aparecia por aqui. Deusa paraibana, descalça e de shortinho dançando choro na Benedito Calixto e ainda descalça perambulando pela Liberdade. Um escândalo. O pobre do paulistano não se conforma, ainda se fosse feia e miserável, aí podia; toda linda e fresca sob trinta e tantos graus é um descalabro. Aí tem, pensa o coitado.

Não é à toa que aconteceu aqui o caso daquela menina do vestido rosa (ou era vermelho?), que pôs a faculdade em polvorosa por causa do seu jeito sexy. Povinho recalcado.

Perdido entre a intimidade espontânea dos baianos e a polidez cosmopolita que almeja, o paulistano finge sublimar o interesse pelo outro e pelo outro se sente desafiado, inseguro.

Uns poucos ousam fazer algo diferente e o caipira não perdoa, reage desmedidamente, se não assustado, com agressividade. O mais é feira e construção.

Eu evito sair sexy na rua se não estiver acompanhada e no dia a dia prefiro ser confundida com carola, mas nem isso adianta e eu posso dizer por experiência própria.

Aproveito que por estes dias está rolando o movimento pelo fim da violência contra a mulher para contar um causo.

Começo dos anos 90, eu trabalhava numa galeria de arte na Paulista e costumava me vestir de forma bem extravagante, colants, plataformas, pantalonas, um visual meio drag queem que eu trazia de uma temporada nos estaites, e é claro que chamava muita atenção.

Num domingo resolvi colocar uma roupa bem discreta, jeans, sapatilha e um camisetão até quase o joelho. Pois foi bem nesse dia que eu sofri o assédio mais violento da minha vida, e na hora eu pensei em quão irônico era aquilo, que justo no dia em que eu me sentia mais protegida dos olhares dos outros aquilo acontecesse.

Minha conclusão é que não há prevenção possível que não a educação em massa, uma formação voltada para o respeito ao outro que atinja todas as camadas sociais e da qual a condenação da violência física seja parte.

Ainda hoje pais e mães batem nos filhos. Perguntem a eles o que acham da violência contra a mulher e não vou me surpreender se forem veementemente contra. A direção agressiva praticada pelos motoristas brasileiros é outro exemplo; que se faça uma pesquisa perguntando o que acham da violência contra os negros.

Como a questão da violência é sempre debatida de modo fragmentado fica acertado que, poxa, ninguém é perfeito, eu sou contra a violência mas em certas situações, sabe como é. E o conceito geral de que em certos casos ou o outro é merecedor da violência ou a violência é pouco significativa - nunca do ponto de vista da vítima, claro - prevalece.

Comportamentos tacanhos não são exclusividade dos paulistanos, infelizmente. Mas que eu acho ridículo que esse povo se valorize tanto por causa de um punhado de bons restaurantes, acho mesmo.

O amor no Grande Circo Braziu

A fantástica engolidora de sapos juntou-se com o equilibrista; nem se gostavam tanto assim mas sabiam que somando as habilidades de um e de outro passariam incólumes por qualquer corda bamba. Um dos poucos casais a sobreviver ao Plano Collor, ela engolindo sapos leitosos, ele equilibrando as contas na ponta de uma 38 enferrujada.

O domador de leões casou-se com a mulher barbada, fera por fera ao menos esta escovava os dentes. Não deu certo e em pouco tempo se divorciaram; quando ele lhe jogou um naco de carne ela lhe lançou a frigideira à testa, ele catou o chicote e ela gritou: homem que é homem não bate em mulher! Sem piscar o domador tascou-lhe boa lambada e respondeu que mulher com barba não era mulher, seria, no máximo, uma portuguesa rústica, acrescentando que de mais a mais era gay desde sempre.

O mágico assediou a contorcionista de todas as formas que pode, deu-lhe os lenços coloridos e transformou nabos em flores. Ela se enrolava, não dizia que sim nem que não; gostava dele mas temia morar dentro da cartola, não pelo espaço pequeno que para ela era um desafio tentador, mas pelo coelho - era alérgica a pêlos irracionais.

Os palhaços não queriam nada sério e se bastavam, enquanto um comia o cu do outro o terceiro morria de rir; depois tomavam banho de esguicho e começavam tudo de novo.

Fim trágico teve o casal de trapezistas chineses, muito tímidos, não falavam com ninguém - também, se falassem, não seriam entendidos. Teciam a própria rede de segurança e ninguém percebeu que a chinesinha era cegueta e confundiu a linha com o bifum que sobrara da véspera; no dia em que ela caiu lá de cima é claro que deu com a cara no chão. Ele bem que tentou processar a fabrica do macarrão, mas ninguém entendia o que ele dizia e ficou tudo por isso mesmo.

Madame Sim, que via tudo na bola de cristal, casou-se com o dono do circo. Nem precisou do tarô para saber que ele era o único bom partido daquele bando de artista mambembe. Deu logo um jeito de fazê-lo vender aquela joça, compraram um quiosque na Praia Grande e são mais ou menos felizes até hoje.

18/11/09

Vôo livre

Foi meio sem querer que eu te chamei de meu amor e você não perdoou, parou tudo e me olhou daquele jeito que me fazia encolher, mandou: repete.
Você não tinha medo de mim e isso me assustava; ao invés de correr da minha liberdade gritante me declarou peça sua sem maiores cerimônias, tudo bem simples.
Nem dor nem prazer me tocavam além da superfície, você sabia e por isso me punha no colo e ia falando devagar do que me era caro, as fantasias secretas que você adivinhava, a fragilidade protegida, a minha força incrível; um mágico tirando lenços coloridos da cartola e hipnotizando a audiência assombrada; assim me revolvia por dentro, penetrando com palavras, as mesmas que buscava em mim e me devolvia.
Então eu me sabia pequena, poeira agitada pelo vento.
Assopra-me outra vez.

Sorry, folks

Se esse blog fosse mais conhecido ganharia o prêmio "Top Pieguice Brazil".

17/11/09

Das axilas

Melhor dizer que há anos leio e releio o livro Ficções (1977), com a obra completa em prosa da Hilda Hilst. Pois é.

12/11/09

Pequenos prazeres

PF

passeio

objeto de desejo em saia e blusa

a janela atrás do computador

sala cheia de planta

sala no caos domingueiro

09/11/09

Salgadinho

Coisas de mulherzinha, pois é.

O meu perfume favorito vai sair de linha. Rios de lágrimas e um oceano de reais empenhado numa das últimas peças do mercado. Chora, bananeira.

Por falar em bananeira, fui escolher um hidratante para a cabeleira. Rapaz, tem até hidratante de mamão, há mocinhas por aí querendo sair com o cabelo cheirando a mamão, não é incrível? Se bobear são as mesmas que usam sabonete de chocolate e hidratante de morango.

A propósito, ganhei da minha cunhada um hidratante para a pele com aroma de baunilha. Cara, que loucura, fico enjoada de um tanto que, ó, não tem remédio melhor para deixar de comer. Eu recomendo pra você que quer fechar a boca e não sabe como.

Fica rico quem lançar um creme salgado pra passar no cu, neam, porque cu doce é foda. Cuzinho sabor... palmito, que tal? Não dizem que pepino tem ação vasoconstritora? Corre, Johnson!

28/10/09

Pequena

Pena, o link que eu tinha como endereço de origem desta imagem não funciona mais. Era de uma moça que fazia lindos postais.

*
Mudando e não mudando de assunto, o endereço do meu fornecedor de carnes para feijoada não funciona mais. O real. Uma bosta. Ele era bom e gostava de mim. O endereço do sapateiro também não funciona mais. Acho que morreu, o velhinho. Ele olhava os meus sapatos e dizia:
_ Que bela porcaria, hein?
_ Um Fernando Pires!
_ Bela porcaria.

Era ótimo, esse tiozinho. Encantadoramente mau humorado. Um fofo.

Odeio perder bons fornecedores. Até choro. Muito chato.

Pobre Pitágoras

Você deve pensar que eu sou maluca, cheia de neuroses, delírios, desassossegos, e, bingo, você acertou. As unhas são poucas para tanta parede a arranhar mas babo mansa quando meu nome dança em tua boca e esperar por aquilo que talvez nunca venha é ainda a minha melhor perspectiva; traço rotas de um ponto de fuga a outro pois já me fiz ao mar tantas vezes que não posso ocultar a verdade: a linha do horizonte é intangível, o meu caminho a paralela de excessão que nunca encontrará a tua, o infinito só existe em mim e em mim você não está. Não te prendo nem perdoo, o respeito é a grama sobre a qual um dia nos amamos, prefiro te ver correndo enquanto fico a escarafunchar minhocas, os seres subterrâneos, a terra úmida que me refresca a pele febril; porca-mãe obstinada, vaca sagrada a regurgitar, quanto mais surreal mais etérea e assim seja, bastam-me minhas próprias raízes, âncoras-grades que moldei passional, para ti um sonho que acaba à luz do sol.

*

Mais um texto velho que vem morar aqui. Paralelas, pontos de fuga. Sempre fui mal em geometria.

22/10/09

Ainda

Ontem


Até hoje perplexo
ante o que murchou
e não eram pétalas.

De como este banco
não reteve forma,
cor ou lembrança.

Nem esta árvore
balança o galho
que balançava.

Tudo foi breve
e definitivo.
Eis está gravado

não no ar, em mim,
que por minha vez
escrevo, dissipo.



Drummond, A Rosa do Povo

20/10/09

Outra unção

Asco, no mato a carcaça um enxame de vermes. A lesma lenta rasteja na folha ao lado, gosma untuosa, tão frágil, derrete sob o sal. Frágeis e infinitos são os vermes.

Rasteja também lenta, untuosa e infinita, minha boca sobre ti. Frágil, não. Antes fulgor redivivo, o sobrevivente. Sempre a língua úmida, a palavra amorosa, a saliva que se renova como se do nada.

Fria é a noite no deserto, fria e lenta, como a lesma.

O vento traz cheiros de restos.

15/10/09

à toa

Cresci ouvindo dizer que filho dá trabalho. Eu digo brincando que é um trabalhinho de merda com um puta de um salário, mas às vezes a verdade é bem outra.

Essa moça é psicóloga, pedagoga, trabalhou anos com crianças até decidir ter filhos, hoje um casal de 2 e 5 anos. Aos poucos vai me contando dos momentos em que se chegava à janela da área de serviço para chorar sozinha, perdida e impotente diante das crises de choro e agressividade dos pequenos.

Eu achava que o trabalho que os filhos davam era essa coisa de dar comida, limpar a bunda, levar para lá e para cá. Não sabia do trabalho invisível, o embate emocional constante, a vigília ininterrupta. Discutir pela milésima vez com um ser de três anos para poder escovar-lhe os dentes. O medo da janela, da doença, da maldade. A frustração diante das próprias falhas, incompetências que se revelam. Bumbos e sambalelês na sua manhã de ressaca. Elencar prioridades preterindo as suas em favor das deles. Longa lista.

O buffet infantil é uma provação à parte. Da primeira vez saí tonta, exausta, bestificada. Quanto barulho, quantas luzes piscantes, quantas e quantas vezes ajudar a subir e descer de brinquedos, quantas crianças gritando, quanto refrigerante sem gelo e salgadinho gordurento. Talvez a moçada das raves se dê melhor nesta luta, eu demorei a me recuperar.

Na segunda vez fui enquadrada na mesa dos pais da escola, que me cumprimentam e continuam a conversa:
_ O último encontro de casais foi maravilhoso.
_ Que delícia! Qual igreja vocês frequentam?

Assisto calada. As mães comentam que este não quer comer verdura, aquele morde o irmãozinho e por aí afora. Já estou escolada, faço disto uma prova de amor e como em casa antes de ir. O resto é uma sequência de suspiros.

Mas depois de tudo isso tem um bichinho me esperando de manhã, abraçado a muitos bichinhos de pelúcia, os olhos transbordantes de amor, os cabelos bagunçados. Ai, ai, então tá.
_ Vem, bichinho, dá aqui um abração.

13/10/09

Oiaboia

Esqueci de postar a bóia-destaque da semana passada - lembrando que aqui só valem receitas facinhas, na esperança de que meu irmão um dia descubra o meu blogue e pare de me servir peixe com mingau de maracujá.

Apesar da alcachofra da Clara ter ficado bem gostosa, o que eu mais curti na semana passada foi a carninha com moyashi. Fácil, fácil, zipt, zapt, zum.

Para 4 pessoas

1 col. sobremesa de óleo de canola
3 dentes de alho picadinhos
3 cm de gengibre ralado
600 g de filé mignon em tirinhas (ou outra carne macia, alcatra, por ex.)
2 cebolas médias em tirinhas
400 g de moyashi
pitada mínima de sal
aji no moto (opcional)
1 1/2 col chá de amido de milho
2 col chá de açúcar
100 ml shoyu
50 ml água
óleo de gergelim (opcional)

Refogue o alho e o gengibre, junte a carne. Refogue 2 minutos, salpique um nada de sal e junte a cebola. Refogue mais 2 minutos, junte o moyashi, misture e salpique o amido de milho e o açúcar, misture, junte o shoyu e a água, misture e tire do fogo quando levantar fervura. Gotas de óleo de gergelim, arroz e legumes al dente do lado e um abraço.

Né?

_ Meu, faz alguma coisa bem escrota pra eu te odiar, vai.
_ É, né? Separar amando é foda.